sábado, outubro 09, 2010

Política externa tucana

No debate presidencial exibido pela Record, a primeira pergunta do candidato tucano José Serra foi dirigida ao socialista Plínio, numa clara provocação à política de Lula.
- Qual sua opinião sobre a política externa do governo Lula?
Prínio respondeu que era uma política megalomaníaca de Lula querer resolver problemas no Haiti, Honduras e Irã. Porque cada país deve saber qual seu lugar na política internacional e que tudo o que o Brasil havia feito foi desfeito imediatamente pelos Estados Unidos.
Empolgado com a resposta, e querendo aproveitar o entusiasmo para continuar os ataques ao presidente Lula, José Serra falou que era ruim para o Brasil manter amizades com países que não respeitam os direitos humanos, e aparecer ao lado de ditaduras como o Irã, que claramente está na corrida para produzir uma bomba nuclear.
Para surpresa ou decepção do tucano, Plínio, em meio a aplausos da platéia incontida, respondeu algo assim:
- Ora, mas nós temos negócios com os Estados Unidos. Quer país para causar mais problemas com direitos humanos que os Estados Unidos? E nós mantemos negócios com eles! Além disso, ninguém deve ter bomba atômica! Mas se os Estados Unidos têm bomba atômica, se Israel tem bomba atômica, porque o Irã não pode ter? é preciso acabar com essa hipocrisia!
Apesar de ter saído das eleições como mais um candidato excêntrico, nenhum expressou com tanta lucidez o pensamento de brasileiros indignados, brasileiros que não partilham desse engodo, dessa ditadura ideológica imposta pelo imperialismo americano e reproduzido pela mídia com ar intelectualismo, forçando a sociedade a acreditar em um maniqueísmo onde, de um lado, representando as forças do bem estão os Estados Unidos e, do outro, o império do mal do oriente.
Segue, sem comentários para a foto, para vergonha nacional e deboche internacional, o que os tucanos chamam de política externa.

sexta-feira, outubro 08, 2010

De toda a estrutura capitalista, nenhuma parece ser tão difícil de derrubar como o entorpecimento que ele causa nas pessoas. E parece também que em nenhum ponto é tão frágil quanto esse. De fato, as crises financeiras se sucedem e um abismo cada vez maior separa os ricos dos pobres dilacerando o meio ambiente e as pessoas, o que gera revolta e indignação, mas o capitalismo nunca é colocado sob suspeita, e continua a ser o “falo” na vida das pessoas. O seu grande triunfo está, portanto, na cegueira e na paralisia a que submete as pessoas.
As instituições conseguiram convencer as pessoas de que o capitalismo é um sistema justo, democrático, e progressista. Justo porque dá igualdade de oportunidade a todos. Não é à toa que chamamos os EUA, arautos do capitalismo, de “terra da oportunidade”. Democrático porque as pessoas vão às urnas escolher seus representantes. Progressista porque usando a meritocracia como bandeira, anunciam uma competição “saudável”, motivadora, que funciona como força motriz do desenvolvimento.
Resultado disso é que o socialismo está sempre associado à preguiça, tirania, e ao atraso. À preguiça porque se todos vão ter espaço, não há razão para o esforço. À tirania porque divulga-se que a repressão e a violências são atributos próprios do comunismo. E ao atraso porque, numa sociedade preguiçosa onde as mentes brilhantes não são de alguma forma recompensadas, não há razão para sair da roça.
Começamos o texto afirmando enfaticamente que a cegueira é a grande arma do capitalismo. Assim afirmamos porque não parece razoável que as pessoas concordem em trabalhar para sustentar os salários megalomaníacos de top models e jogadores de futebol se não existisse uma poderosa estrutura de entorpecimento do trabalhador que o conduz a aceitar esse tipo de situação.
Acontece que o trabalhador não percebe que quando compra aquele tênis em várias prestações, está, na verdade, financiando esses impérios. Ora, nada justifica que um produto que tem baixo custo chegue às prateleiras custando tanto. Tentemos remontar o caminho da exploração.
Primeiro, a matéria prima é obtida ao custo financeiro mais baixo possível. São matérias obtidas da extração e da exploração de riquezas naturais e de pessoas. Daí eu ter usado a expressão custo financeiro, porque é uma questão que custa menos dinheiro ao empresário, mas que tem um alto e irreparável custo para os trabalhadores e para o meio ambiente.
Em seguida, na fase de produção, novamente o trabalhador é explorado, suportando pesadas jornadas de trabalho para sustentar sua família. A baixa educação presta serviço ao capitalismo, no sentido de que provém a este uma reserva de mão de obra, o que se resume nas palavras “se você não quer, existe outro que quer”, obrigando o empregado a se submeter a qualquer condição de trabalho, como única forma de sustentar a família.
Fazem os empresários a população acreditar que o elevado preço final dos produtos se deve aos impostos. Novamente o capitalismo cega as pessoas, que mesmo inseridas nessa perversidade, defendem o regime que os esmaga, e repetem os discursos burgueses, de que os impostos é que atrapalham o desenvolvimento. Assumem o risco de perderem escolas, hospitais e outros serviços públicos se uma redução de impostos lhes abrirem as portas para o consumo.
Mas... um momento... precisamos ver aqui, além dos impostos, o que encarece os produtos. Ora, é claro que os produtos precisam refletir os altos ganhos dos empresários desde a produção até o comércio, passando por inúmeros de atravessadores. E aqui ainda existe embutido o salário milionário que concordamos, sim, concordamos, em pagar para as estrelas. Então vamos encarecer um pouco o produto porque precisamos (o que, no capitalismo, é uma regra) pagar o anunciante da marca e os artistas que aparecerão nos comerciais. E os comerciais são caros, porque é deles que os monopólios televisivos arrecadam os recursos para pagarem salários astronômicos aos apresentadores, atores, produtores de novela, etc. Além disso, o jogador-astro que aparece no comercial do tênis também precisa de salário cada vez maior.
O capitalismo ainda nos obriga a admirar essas pessoas, e a nos identificarmos com elas, mas o grande golpe do capitalismo é fazer isso sem que o trabalhador perceba que está pagando seus altos salários.
Resultado disso é que nós, brasileiros, temos orgulho de terem nascido aqui as modelos mais bem pagas do mundo e também os jogadores de futebol mais bem pagos do mundo. Temos orgulho e admiração por eles, mas odiamos o Estado por causa do salário mínimo vergonhoso! Odiamos o Estado por causa dos impostos esmagadores e juros abusivos! Outro dia ouvi dizer que a gasolina seria muito mais barata se não existisse tantos impostos! Quando se fala em imposto no combustível, facilmente um grupo defende reforma tributária. Mas até hoje nunca vi nenhum desses prejudicados falar em reduzir o preço da soja, do trigo ou do feijão.
Mas porque repudiamos tanto os impostos e ao mesmo tempo aceitamos pagar esses salários às nossas celebridades? Essa é a pergunta que pode minar de vez com o capitalismo.
Revoltamo-nos porque há filas nos hospitais, porque os medicamentos são caros, porque não há creche para as crianças e porque as escolas não são dignas, existindo apenas para manter esse entorpecimento. Mas não causa indignação nenhuma um jogador de futebol, um artista, uma modelo ou um apresentador receber salários de 3 milhões de reais por mês num país em que a maioria da população vive de salário mínimo.
Um sistema assim não pode ser justo, porque concentra toda a renda na mão de poucos. Não é democrático, porque as pessoas vão às urnas, mas não participam da riqueza, não usufruem do próprio trabalho, são excluídas da renda, da comida, da educação e da informação. E, finalmente, não é progressista, porque tem uma visão pobre de modernidade. Pensam que a modernidade é ter uma minoria desfrutando de eletrônicos de ultima geração, transporte luxuoso, mesmo que crianças estejam abandonadas nas ruas. Isso é atraso. A diferença entre ricos e pobres no Brasil chega a ser maior do que a diferença entre o suserano e os vassalos na idade medieval.
Mas o capitalismo um dia vai minar. E não vai ser por um colapso, nem por uma crise financeira mundial. Não é porque vai ser superado e nem por ser modificado por um economista brilhante. Ele vai minar porque os trabalhadores não admirarão mais esses astros que vivem às nossas custas. Porque o cidadão vai se cansar de trabalhar para sustentar esses salários. Porque as grifes e as marcas deixarão de ter mais importância do que a dignidade e a decência. Vai minar e vai cair às ruínas porque os monopólios vão cair. Porque o trabalhador vai deixar de comprar o tênis caro, e o dinheiro do trabalhador vai deixar de ser dissipado para sustentar a excentricidade de uma minoria.
Assim como as pessoas hoje se incomodam com os casacos de pele, com o desmatamento e com a poluição, causará incômodo também pessoas vivendo no luxo às custas dos pobres. Causará incômodo também a concentração da renda.
E, finalmente, quando houver justiça e distribuição de renda, nós nos lembraremos do capitalismo como nos lembramos das cruzadas, da mesma forma como nos lembramos do holocausto, ou do acidente da cápsula de césio em Goiânia.

sábado, julho 03, 2010

NO LLORES POR TI ARGENTINA...


Resultados à parte, é curiosa a tragetória que nosso futebol toma. Pelé, ainda não contente em ser o rei da bola, quer também pousar de intelectual. Um fiasco.
Nossos vizinhos argentinos vibram, provocam, Maradona promete comemorar a vitória peladão e tudo o mais: isso é futebol. Enquanto isso, "nós outros", ao invés entrarmos na brincadeira e cairmos nas provocações dos hermanos com outras provocações, ficamos perdendo tempo censurando, discutindo eruditamente as provocações do debochado técnico argentino, e idolatrando um pseudo-intelectual. Eu diria que não o Brasil, mas a Argentina é o país do futebol.
Futebol é brincadeira, é provocação e emoção. É o Felipão zangado, é Zagallo passando, olho-no-olho, confiança para seu grupo. Futebol se resolve no campo e na arquibancada. É isso.
Hoje, infectados com as etiquetas européias, tenta-se ganhar futebol com palestras de auto-ajuda para milionários, com intelectualismo, e com isso estamos importando também o frio europeu, e ironicamente acusamos os argentinos de quererem ser europeus. Não é irônico isso?
Por que, à semelhança dos argentinos, não importamos a educação européia e fabricamos o futebol em casa?
No mundo globalizado, parece-me que a Argentina faz escolhas melhores que as nossas: educação dos países frios, mas o futebol tropical.

quinta-feira, maio 20, 2010

Video: História das Coisas



Questões propostas:
1. Qual a diferença entre obsolescência planejada e perceptiva?
2. Apresentar um exemplo de publicidade.
3. Como é possível manter os preços baixos?
4. Comente sobre o sistema de consumo.

domingo, março 28, 2010

A justiça foi feita?

Fogos soberbos enfeitam o céu de São Paulo. O casal Nardoni foi condenado à prisão. Nada a contestar, foi a vontade do júri diante das evidências e dos argumentos apresentados.

A condenação é apresentada pela mídia como o manjar da justiça, e a sociedade celebra a condenação como se tudo fosse mudar de agora em diante.
O fato é que centenas de crianças morrem a todo momento de desnutrição ou são condenadas ao trabalho escravo ou à prostituição.
Imagino que não muito distante do palco da justiça, algumas crianças se perguntam, entre uma pedra e outra de crack: "Justiça foi feita?". E se não têm lucidez para se perguntarem, eu pergunto: onde estão esses que fazem passeatas e protestos na hora de pedir uma distribuição de renda mais justa?
Acaso os fogos de artifício os ensurdeceram e já não ouvem mais tantas tripas clamarem?

Será que essas pessoas se perguntam se fazem justiça ao pagarem seus empregados? será que tratam os recursos naturais com justiça? será que tratam seus subordinados com justiça?

Essa reflexão é na verdade um convite a clamar para que se faça justiça também às crianças que não têm escola, que são condenadas ao trabalho escravo, à prostituição ou à marginalidade.

E também justiça com as próprias mãos, condenando os políticos corruptos, que assassinam crianças em massa todos os dias, tirando-lhes os livros, o pão e o futuro.

sexta-feira, março 19, 2010

Deus comporta sentimentos?

O caráter antropomórfico atribuído a Deus constitui, talvez, a maior resistência encontrada pelo cristianismo. De fato, as escrituras apontam o homem como imagem e semelhança do Criador, e, reciprocamente, atribui a Deus características propriamente humanas. Assim, o que temos é uma divindade que vivencia e experimenta os mesmos sentimentos, angústias e aflições que acometem os homens. As escrituras apontam um Deus que ama, alegra-se, entristece-se, ira, dialoga, compadece, muda de opinião, enfim, enfrenta os mesmos sentimentos que os homens.
Ofereceremos algumas razões para se pensar o contrário, posto que uma análise da palavra paixão não pode ser aplicada sem prejuízos ao conceito de divindade, primeiro por uma contradição ontológica e segundo porque fere a noção de liberdade.
O termo paixão deriva do grego páthos, que em termos fundamentais representa o contrário de ação. Dessa forma, se você escreve em um caderno, sua ação é escrever, e a paixão do caderno é ser escrito. Igualmente, quando você agride alguém, sua ação é agredir, e a paixão da pessoa é ser agredida. Os sentimentos são, nesse sentido, paixões da alma, uma vez que somos acometidos por eles, porque os sentimos, como a própria palavra indica, e, portanto, não são ações, sim paixões, uma vez que somos afetados por eles. Não escolhemos amar, nem odiar. Não se marca data para amar alguém, nem se escolhe deixar de amar. Em outras palavras: não está no nosso controle.
Aqui reside o primeiro problema: como pode algo estar fora do controle de Deus? Como um ser onipotente se permite ser afetado por algo?
É necessário ressaltar que não estamos falando de um Deus mau, nem pretendemos tirar virtude alguma de Deus, pelo contrário, retirar a passividade de Deus é engrandecê-lo ainda mais, é exaltá-lo de forma mais plena, é reconhecer que nele não há sombra alguma de fraqueza e nem de privação. A noção de Deus não pode comportar nenhuma fraqueza, a grandeza e a potência de Deus não permite que ele esteja sujeito a nada. Deus é pura afirmação, puro poder. Reconhecer isso é reconhecer de forma mais elevada a sua plenitude. Ao negar as paixões, ao contrário de enfraquecê-lo, afirma-se Deus com mais vigor.
Nosso segundo argumento está no fato de que o conceito de liberdade somente pode comportar a indiferença. Não estamos falando da liberdade de agir, mas da plena liberdade para escolher entre uma coisa e outra, a liberdade fundamental que se exerce no âmbito da consciência. Um exemplo: Se um pai vê o filho refém de um seqüestrador, ele concretamente é livre para pagar ou não o resgate, mas alguém arriscaria dizer que ele é plenamente livre? Em qualquer situação em que um resultado é mais apreciável que outro, em que um resultado é mais desejado que outro, encontramos o mesmo dilema. Em outras palavras, não escolhemos as ações, escolhemos resultados. Não é difícil perceber que não somos livres para realizar a maioria das coisas. Mas se há situações em que somos realmente livres, são aquelas situações em que o resultado é indiferente. Para os estóicos, por exemplo, só é livre a pessoa para quem a saúde não seria mais desejável que a doença. Somente é livre aquele para quem o prazer não é mais importante do que a dor. Nesse sentido, aqueles que realmente conseguiam atingir esse ponto poderiam se afirmar como livres. Como Deus poderia ser livre se fosse tomado de paixões, de fraquezas, de desejos, de paixões? Novamente, ressalte-se que não estamos propondo um Deus monstro, um Deus frio, mas sim um Deus inatingível por natureza, um Deus que se revela em absoluta força, poder e liberdade em sua forma mais plena.
Não estamos com isso tirando o valor das escrituras, mas provocando uma reflexão, apontando para uma interpretação mais figurativa, afinal, um Deus tão grande não pode ser traduzido senão humanamente. É por isso que recorremos aos sentimentos humanos para falarmos de um Deus imensurável, inalcançável pelo pensamento.

quarta-feira, março 10, 2010

A desordem do Progresso

Em nenhum outro país os ricos demonstraram mais ostentação que no Brasil. Apesar disso, os brasileiros ricos são pobres. São pobres porque compram sofisticados automóveis importados, com todos os exagerados equipamentos da modernidade, mas ficam horas engarrafados ao lado dos ônibus de subúrbio. E, às vezes, são assaltados, seqüestrados ou mortos nos sinais de trânsito. Presenteiam belos carros a seus filhos e não voltam a dormir tranqüilos enquanto eles não chegam em casa. Pagam fortunas para construir modernas mansões, desenhadas por arquitetos de renome, e são obrigados a escondê-las atrás de muralhas, como se vivessem nos tempos dos castelos medievais, dependendo de guardas que se revezam em turnos.

Os ricos brasileiros usufruem privadamente tudo o que a riqueza lhes oferece, mas vivem encalacrados na pobreza social. Na sexta-feira, saem de noite para jantar em restaurantes tão caros que os ricos da Europa não conseguiriam freqüentar, mas perdem o apetite diante da pobreza, que ali por perto, arregala os olhos pedindo um pouco de pão; ou são obrigados a ir a restaurantes fechados, cercados e protegidos por policiais privados. Quando terminam de comer escondidos, são obrigados a tomar o carro à porta, trazido por um manobrista, sem o prazer de caminhar pela rua, ir a um cinema ou teatro, depois continuar até um bar para conversar sobre o que viram. Mesmo assim, não é raro que o pobre rico seja assaltado antes de terminar o jantar, ou depois, na estrada a caminho de casa. Felizmente isso nem sempre acontece, mas certamente, a viagem é um susto durante todo o caminho. E, às vezes, o sobressalto continua, mesmo dentro de casa.

Os ricos brasileiros são pobres de tanto medo. Por mais riquezas que acumulem no presente, são pobres na falta de segurança para usufruir o patrimônio no futuro. E vivem no susto permanente diante das incertezas em que os filhos crescerão. Os ricos brasileiros continuam pobres de tanto gastar dinheiro apenas para corrigir os desacertos criados pela desigualdade que suas riquezas provocam: em insegurança e ineficiência.

No lugar de usufruir tudo aquilo com que gastam, uma parte considerável do dinheiro nada adquire, serve apenas para evitar perdas. Por causa da pobreza ao redor, os brasileiros ricos vivem um paradoxo: para ficarem mais ricos têm de perder dinheiro, gastando cada vez mais, apenas para se proteger da realidade hostil e ineficiente. Quando viajam ao exterior, os ricos sabem que no hotel onde se hospedarão serão vistos como assassinos de crianças na Candelária, destruidores da Floresta Amazônica, usurpadores da maior concentração de renda do planeta, portadores de malária, de dengue e de verminoses. São ricos empobrecidos pela vergonha que sentem ao serem vistos pelos olhos estrangeiros.

Na verdade, a maior pobreza dos ricos brasileiros está na incapacidade de verem a riqueza que há nos pobres. Foi esta pobreza de visão que impediu os ricos brasileiros de perceberem, cem anos atrás, a riqueza que havia nos braços dos escravos libertos, se lhes fosse dado direito de trabalhar a imensa quantidade de terra ociosa de que o país dispunha. Se tivessem percebido essa riqueza e libertado a terra junto com os escravos, os ricos brasileiros teriam abolido a pobreza que os acompanha ao longo de mais de um século. Se os latifúndios tivessem sido colocados à disposição dos braços dos ex-escravos, a riqueza criada teria chegado aos ricos de hoje, que viveriam em cidades sem o peso da imigração descontrolada
e com uma população sem miséria.

A pobreza de visão dos ricos impediu também de verem a riqueza que há na cabeça de um povo educado. Ao longo de toda a nossa história, os nossos ricos abandonaram a educação do povo, desviaram os recursos para criar a riqueza que seria só deles, e ficaram pobres: contratam trabalhadores com baixa produtividade, investem em modernos equipamentos e não encontram quem os saiba manejar, vivem rodeados de compatriotas que não sabem ler o mundo ao redor, não sabem mudar o mundo, não sabem construir um novo país que beneficie a todos. Muito mais ricos seriam os ricos se vivessem em uma sociedade onde todos fossem educados.

Para poderem usar os seus caros automóveis, os ricos construíram viadutos, com o dinheiro de colocar água e esgoto nas cidades, achando que, ao comprar água mineral, se protegiam das doenças dos pobres. Esqueceram-se de que precisam desses pobres e não podem contar com eles todos os dias e com toda saúde, porque eles (os pobres) vivem sem água e sem esgoto. Montam modernos hospitais, mas tem dificuldades em evitar infecções porque os pobres trazem de casa os germes que os contaminam. Com a pobreza de achar que poderiam ficar ricos sozinhos, construíram um país doente e vivem no meio da doença.

Há um grave quadro de pobreza entre os ricos brasileiros. E esta pobreza é tão grave, que a maior parte deles não percebe. Por isso, a pobreza de espírito tem sido o maior inspirador das decisões governamentais, das pobres ricas elites brasileiras. Se percebessem a riqueza potencial que há nos braços e nos cérebros dos pobres, os ricos brasileiros poderiam reorientar o modelo de desenvolvimento em direção aos interesses de nossas massas populares. Liberariam a terra para os trabalhadores rurais, realizariam um programa de construção de casas e implantação de redes de água e esgoto, contratariam centenas de milhares de professores e colocariam o povo para produzir para o próprio povo. Esta seria uma decisão que enriqueceria o Brasil inteiro. Os pobres que sairiam da pobreza e os ricos que sairiam da vergonha, da insegurança e da insensatez.

Mas isso é esperar demais. Os ricos são tão pobres que não percebem a triste pobreza em que usufruem suas malditas riquezas.

CRISTOVAM BUARQUE

quarta-feira, setembro 23, 2009

Ciro Gomes e a redução da maioridade penal

Na madrugada de domingo para segunda-feira (21), o Deputado Federal Ciro Gomes participou de uma entrevista na Band, comandada pelo Jornalista Boris Casoy. Não acompanhei a entrevista na íntegra, o que é uma pena, pois me pareceu de excelente nível.

Perguntado sobre o que pensava a respeito da redução da maioridade Penal, Ciro negou quando a pergunta ainda nem havia sido concluída.
"Um Estado que não oferece creche às crianças e uma educação de qualidade aos jovens não tem o direito de prendê-los", respondeu taxativo. Complementou dizendo ser plenamente compreensível que um homem de bem deseje a punição severa de um menor de quem tenha sido vítima de violência. Entretanto "como um homem de Estado não posso concordar com isso", concluiu.

Destaco aqui não apenas a lucidez da resposta, mas também sublinho a coragem de assumir uma postura anti-popular. Suponho que seria muito mais aplaudido defendendo pena de morte para adolescentes, mas assumiu uma posição em que reconhece a fragilidade econômica e a crise educacional que caracterizam o momento.
Não menos digno de se destacar é a percepção de que a revolta e a indignação de uma vítima sedenta por vingança é aceitável e compreensível no âmbito psicológico, mas não deve se estender à esfera política, uma vez que a solução para o problema da violência exige um tratamento muito mais complexo do que o aumento das penas: é preciso neutralizar a sua causa, que certamente requer um projeto consistente para a educação e a redução das desigualdades.

O que eu realmente não esperava era ver um jornalista da expressividade do Boris nutrindo apreço por uma opinião tão limitada, apelando pela redução da maioridade penal sob um panorama notoriamente popularesco.
Algumas pessoas entendem que a prática da justiça se realiza na cadeia. Felizmente ainda há quem acredite que a justiça se efetiva na educação e na redução das diferenças.

quarta-feira, setembro 02, 2009

Considerações sobre a sociedade autônoma a partir das leituras de Freud e Castoriadis.
Thiago César


A proposta do pensador Cornelius Castoriadis é apresentar uma leitura inovadora da psicanálise e sua relação com a política. E de fato, inicia o seu texto Psicanálise e Política mencionando que os autores que relacionaram esses temas, em sua maioria, tiraram apenas conclusões pessimistas ou reacionárias, e não aprofundaram questões que fossem para além daquilo que o pai da psicanálise havia deixado.
Tenta-se dar a este texto a mesma estrutura encontrada em Castoriadis r, a começar pela exposição do que se entende por política, psicanálise e pedagogia e porque Freud chegou a se referir a elas como tarefas impossíveis. Em seguida um pequeno esboço acerca das relações existentes entre psicanálise, política e pedagogia, enfatizando suas diferenças quanto à finalidade, e, por fim, uma descrição do que vem a ser uma sociedade autônoma como alternativa razoável frente às civilizações heterônomas.
As considerações que tratam da dominação através do emprego de conhecimento dos processos psíquicos conduzem Castoriadis a ver na atividade política um sentido que indica um intento, um propósito, isto é, pressupõe nesse caso o uso desse conhecimento para atingir um fim específico.
Quanto à psicanálise, seu exercício não visa a atingir nenhum propósito previamente determinado. A análise não conduz a isso. Tampouco tem por objetivo suplantar o Id em função de uma racionalidade, uma vez que a humanidade é igualmente caracterizada pelos afetos e pelos desejos. Se, por exemplo, as pulsões sexuais fossem completamente suprimidas, sequer haveria continuidade dos seres humanos. A análise portanto, pode apenas ser elucidada como “por vir a ser”, mas nunca precisamente definida. O projeto de autonomia, “a nível de ser humano, é a transformação do sujeito de maneira que ele possa entrar nesse processo” (CASTORIADIS, 1992. p. 155). Assim, se podemos delinear um objetivo para a psicanálise, diremos que este é o projeto de autonomia. Enquanto na política há uma relação de dominação, na psicanálise, pela associação livre o paciente é que se torna o principal agente do processo. À atividade lúcida cujo objeto é a autonomia humana Castoriadis chama de práxis.
Quanto à pedagogia, esta tem por meta ajudar o recém-nascido a tornar-se um ser humano. E não se deve esperar que esse processo se complete: “começa na idade zero e ninguém sabe quando termina” (CASTORIADIS, 1992. p. 156). Seu objetivo é desenvolver a capacidade de aprender, descobrir e inventar, mas não significa que isso ocorra sem que haja o ensino propriamente. É nesse sentido que dois princípios se tornam fundamentais: o processo educativo deve visar a desenvolver ao máximo a atividade própria do aluno e deve mostrar a ele porque convém que determinado conteúdo seja aprendido.
Aliás, podemos entendê-la tanto de um ponto de vista psicanalítico quanto social-histórico. Da perspectiva psicanalítica, a educação tem, por assim dizer, um caráter humanizador. É um processo que busca o desenvolvimento máximo da capacidade reflexiva com a inibição mínima de sua imaginação radical. Mas do ponto de vista social-histórico a coisa parece caminhar em uma direção diametralmente oposta: a pedagogia procura educar o sujeito visando que este interiorize as instituições existentes. Ora, constitui uma aparente contradição que o sujeito desenvolva uma atitude propriamente reflexiva e, ao mesmo tempo, assuma para si o que a sociedade instituiu. O homem se vê diante de outros indivíduos cujos desejos se opõem aos seus. Tal situação somente resultaria em desordem, caso não houvesse repressões a determinados instintos.
Exatamente aqui identificamos a impossibilidade da psicanálise e da pedagogia: Como pensar uma autonomia do sujeito dentro de uma sociedade heteronômica? À política resta oferecer uma saída para essa aporia. Daí a razão de também ser uma tarefa “impossível”. A psicanálise lida com o encontro do sujeito com o seu “Eu concreto”, que é um produto social construído, nos termos de Castoriadis, “para funcionar num dispositivo social dado e para preservar, continuar e reproduzir esse dispositivo – isto é, as instituições existentes” (CASTORIADIS, 1992. p. 158). Fato é que essas instituições depois de criadas tornam-se fixas porque o tempo as consolida de sorte que são tidas como dadas desde sempre, seja pelos deuses, pela natureza ou pela razão. Enfim, o que importa ressaltar aqui é que a sociedade já não se reconhece criadora delas. Tomemos agora a seguinte definição dada pelo autor:
“chamo de autônoma uma sociedade que não somente sabe explicitamente que criou as suas leis, mas que se instituiu de tal maneira a liberar o seu imaginário radical e a ser capaz de alterar as suas instituições, graças à sua própria atividade coletiva, reflexiva e deliberativa” (CASTORIADIS, 1992. p. 159).

Cumpre aqui mencionar que Sigmund Freud outrora fizera uma análise , e se convenceu de que a religião presta desserviço à sociedade. Aqui temos um breve comentário nesse aspecto:
“Constituiria vantagem indubitável que abandonássemos Deus inteiramente e admitíssemos com honestidade a origem puramente humana de todas as regulamentações e preceitos da civilização” (FREUD, 1978. p. 116)

Freud havia também destacado a dificuldade de se atingir tal resultado, uma vez que a criança é de tal forma instruída, que, à época em que seu intelecto se desenvolve, essa forma de enxergar já se tornou inexpugnável.
A política é descrita por Castoriadis nesse momento como a atividade lúcida, cujo objetivo é a instituição de uma sociedade autônoma, isto é, um outro tipo de relação entre a sociedade instituinte e a instituída, entre as leis dadas e a atividade reflexiva. E partindo de uma analogia entre indivíduos e sociedade, a autonomia desta pressupõe a autonomia daqueles que a compõe. E a ligação entre essas duas dimensões é feita pela pedagogia.
A fim de em seqüência discorrer sobre o bloqueio do fluxo representativo, Castoriadis lembra que a socialização da psique passa pela aceitação de que seus desejos nucleares não podem ser realizados. Aproveitamos então para novamente remetermo-nos aos escritos freudianos, no intuito de mostrar como ocorre essa contenção. Acontece que está em consonância com a leitura psicanalítica a idéia de que habita no homem alguns instintos que são altamente nocivos à vida social. São comumente mencionados o canibalismo, o incesto e a ânsia de matar. Dificilmente conseguiríamos imaginar uma civilização em que essas pulsões não fossem energicamente censuradas. Numa sociedade sem normas, ou os homens se exterminariam mutuamente ou, quem sabe, uma única pessoa, mais especificamente um tirano, conseguiria ser irrestritamente feliz. Esses três instintos citados são habitualmente assumidos pelo homem civilizado de forma muito forte – sem considerar os neuróticos.
“Acha-se em consonância com o curso do desenvolvimento humano que a coerção externa se torne gradativamente internalizada, pois um agente mental especial, o superego do homem, a assume e a inclui entre seus pensamentos” (FREUD, 1978. p. 92)

Mas ainda muitos outros desejos possui o ser humano que não são internalizados e precisam ser constantemente vigiados. Somente para ilustrar, vale outro fragmento de Freud:
“Há incontáveis pessoas civilizadas que se recusam a cometer assassinato ou a praticar incesto, mas que não se negam a satisfazer sua avareza, seus impulsos agressivos, ou seus desejos sexuais, e que não hesitam em prejudicar outras pessoas por meio da mentira, da fraude e da calúnia, desde que possam permanecer impunes” (FREUD, 1978. p. 92)

Aqui estamos novamente diante da oposição autonomia versus heteronomia. O agir motivado pela aprovação ou evitado diante de coerção externa é heterônomo.
Pois bem. Retornando a Castoriadis encontramos de forma sucinta: “Queremos indivíduos autônomos, isto é, capazes de uma atividade refletida própria” (CASTORIADIS, 1992. p. 160). Como criar instituições cuja interiorização pelos indivíduos não limita, mas amplia a sua capacidade de se tornarem autônomos?
Freud imaginara que um possível uma reorganização da sociedade deveria passar pela reflexão continuada acerca da relação entre exercício da autonomia e mecanismos de repressão.
“Pensar-se-ia ser possível um reordenamento das relações humanas, que removeria as fontes de insatisfação para com a civilização pela renúncia à coerção e à repressão dos instintos (...) A questão decisiva consiste em saber se, e até que ponto é possível diminuir o ônus dos sacrifícios instintuais impostos aos homens, reconciliá-los com aqueles que necessariamente devem permanecer e fornecer-lhes uma compensação” (Freud, 1978. pp. 88, 89).

O que está por trás da questão de Freud é a fragilidade que envolve a sociedade heterônoma. O problema se assenta no fato de que as sociedades heterônomas estão sempre sustentadas num princípio de tal forma que se este for abolido, também tudo o mais que foi instituído inexoravelmente perecerá.
E para Castoriadis, o ponto chave é que os indivíduos são dominados pelas instituições sociais pela interiorização das significações imaginárias sociais. “A sociedade arranca o ser humano singular do universo fechado da mônada psíquica, força-o a entrar no mundo duro da realidade, mas em troca, ela lhe oferece sentido” (CASTORIADIS, 1992, p. 162).
Concluiremos, pois, acreditando estar em concordância com as leituras realizadas que através das vias psicanalíticas, políticas e pedagógicas pode-se chegar o momento, como Freud descreve, em que a sociedade pode reagir tal como um tratamento analítico, e substituir os efeitos da repressão pelos resultados da operação racional do intelecto, uma vez que ela pouco tem a temer das pessoas instruídas que trabalham com o cérebro.


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CASTORIADIS, Cornelius. Psicanálise e Política. In O Mundo fragmentado: As encruzilhadas do labirinto III. Rio de Janeiro: Editora Paz e Terra, 1992.

FREUD, Sigmund. O futuro de uma ilusão. São Paulo: Abril Cultural, 1978. (Coleção Os Pensadores).

sexta-feira, agosto 28, 2009

A religião é um excelente objeto de estudo enquanto fenômeno social, expressão humana, como fazem as interessantes contribuições de Feuerbach, Marx, Freud e outros, mais especificamente à religião cristã, cuja maioria das críticas podem ser aplicadas sem prejuízo às demais.
No tocante à fé, penso ser esta passível de observações no âmbito da fisiologia, psiquiatria etc, mas julgar sua legitimidade é algo que ultrapassa os limites da razão.
A ciência pode até mapear as zonas cerebrais responsáveis pela fé, estimulá-las ou inibí-las, mas isso não confere autoridade nenhuma para afirmar ou negar a existência de uma divindade. Pelo contrário: dedicar-se a provar ou refutar a existência de Deus é uma empreitada que só demonstra ignorância quanto à diferença fundamental entre fé e conhecimento científico. Pura jactância!
Desse modo, imagino que os crentes que se estremecem diante do avanço da ciência, fazem-no sem motivo. "A religião não deve existir para tapar os buracos da nossa ignorância. Isso a desmoraliza", diz Gleiser, conforme já citei. Que diferença faz encontrar o elo perdido, decifrar todo o genoma ou ainda remontar o segundo que precedeu o Big Bang? Nenhuma! Portanto, não vejo o por quê tanto pavor diante da ciência.
Por outro lado, mesmo as mais brilhantes tentativas de demonstrar a existência de Deus parecem esconder um desesperado apelo para dar uma legitimidade desnecessária à fé. Não menos incômoda é a presunção com que alguns ateus estigmatizam a crença, identificando-a com a ignorância. Outro dia li em um fórum sobre darwinismo um declarado ateu pedindo quase pelo-amor-de-Deus que alguém o munisse com argumentos darwino-ateístas para que ele pudesse "humilhar" um crente. Perguntei-me que tipo de disposição faz com que alguém imagine ter tanta superioridade ao defender uma teoria que sequer entende suficientemente, apenas porque tem uma aparência de esclarecimento.
Penso que se Deus existe, é grande demais para ficar preocupado se as pessoas ainda crêem ou não nele. Imaginar um Deus tão carente só aponta para uma imagem mais antropomórfica!
Por fim, um pequeno fragmento de Ensaio sobre o homem, de Ernst Cassirer:
Por seus adversários, a religião sempre foi acusada de obscuridade e incompreensibilidade. Mas tal acusação torna-se o mais alto louvor tão logo consideramos a sua verdadeira meta. A religião não pode ser clara e racional. O que ela relata é uma história obscura e sombria: a história do pecado e da queda do homem. Revela um fato para o qual nenhuma explicação racional é possível. (...) A religião, portanto, nunca pretende esclarecer o mistério do homem. Ela confirma e aprofunda esse mistério. (...) A religião não é nenhuma 'teoria' do Deus e do homem e da sua relação mútua. (...) Portanto, por assim dizer, a religião é uma lógica do absurdo, pois só assim pode apreender o absurdo, a contradição interna, o ser quimérico do homem.
Ernst Cassirer in: Ensaio sobre o homem.

quinta-feira, abril 16, 2009

Não gosto que confiem em mim. Não tenho habilidades.
Por que insistem em andar à beira da pista?
Confiam na minha aptidão ao volante?
Se ao menos eu fosse livre para matar um suicida e não ter crises de consciência...
Mas não sou, e tal coisa seria motivo de tormento e todos os meus demônios se voltariam do meu interior contra mim: Assassino! Funesto assassino!
Eu queria que as pessoas não confiassem em mim. Não esperassem nada de mim a não se o pior, a não ser a vileza.
Aí sim, eu teria o total apoio da minha consciência.
Quando ninguém mais confiar nas minhas habilidades e na minha honestidade
Quando todas assumirem os próprios riscos e eu não for garantidor de nada,
Então existirei.
A arte de não ter razão.

Lembro-me de um livro de Schopenhauer chamado "A arte de ter razão". Diante de um título tão sugestivo, deparamo-nos com uma filosofia que tem propósito diametralmente oposto. Aliás, não tem propósito! A filosofia, arriscaríamos dizer, é a arte de não ter razão.
Ao discurso filosófico não interessa chegar a conclusões. Colocar ponto final em um conceito seria tão pernicioso quanto contaminar a água que corre límpida e refrescante, tornando-a imprópria para o uso.
Aquele que procura ter razão não tem motivos para discutir. Filosofia, ao contrário, é abertura. É preciso a perene noção de que a filosofia se interessa mais pela pergunta do que pela resposta.
E nisto consiste todo o seu valor: a procura constante, inquieta, em tormentos.
Para aqueles que querem convencer, que procurem as ciências. Aqueles que procuram ter razão, aliem-se ao direito e à retórica.
À filosofia, que dediquem os perturbados, inquietos, conscientes da própria ignorância. À filosofia dediquem-se os fracos de coração, os submissos, os que ainda não encontraram seu papel nesse mundo, aqueles que estão sempre em conflito. À filosofia, debrucem-se apenas aqueles que não estão certos de coisa alguma!

domingo, março 08, 2009

O réu é, a priori, inocente?

Na Constituição Federal, artigo 5º, inciso LVII, temos que “ninguém será considerado culpado até o trânsito em julgado de sentença penal condenatória”. Entretanto, para a pergunta acima, a resposta é Não.
Mas não se trata de uma violação à carta magna. A ênfase da nossa reflexão não recairá sobre princípios do direito e sim sobre o uso da expressão a priori. O termo é de uso bastante difundido, mas em muitos casos serve mais para tornar o vocabulário rebuscado do que para significar o que ele representa.
Normalmente as pessoas empregam a priori quando deveriam usar a princípio. Isso porque estão acostumadas à idéia de que a priori representa anterioridade. Daí ser comum expressões como “a priori o réu é inocente” e “a priori o dinheiro seria suficiente” quando se quer dizer “a princípio o réu é inocente” e “a princípio o dinheiro seria suficiente”.
Então vamos combinar uma coisa: a priori tem um sentido epistemológico. Quando faço uma afirmação a priori, declaro a necessidade da afirmação. Uma afirmação necessária é aquela que não pode ser pensada de forma diferente. Um exemplo clássico é quando digo que “todo corpo é extenso”. Estou diante de uma assertiva que não pode ser pensada de outro modo. É inconcebível um corpo que não possua extensão. Examinando bem, temos que a própria idéia de corpo já traz inseparavelmente a idéia de extensão. Outro juízo a priori é quando se afirma que “o triângulo possui três lados”. Aqui pode haver uma decepção, uma vez que não foi dito nada além do óbvio. Mas é isso mesmo. Os juízos a priori expressam relação de necessidade, e podem ser formulados sem que haja uma experiência. A confusão tem origem quando se contrapõe ao seu parente a posteriori, que decorre uma experiência. As formulações a priori não somente antecedem uma experiência, mas a dispensam totalmente. Não é razoável, pois, uma experiência para comprovar algo que pode ser dito a priori, até mesmo porque é inconcebível que algo seja de um modo a priori e de outro modo a posteriori. É o mesmo que dizer que um triângulo pode, em alguma circunstância, possuir numero de lados diferente de três.
Então já podemos entender onde consiste o erro na frase “o réu é, a priori, inocente”. Seria correta se a idéia de réu já nos conduzisse à inocência, o que não é o caso. Além disso, após o julgamento, podemos perfeitamente conceber um réu culpado. Portanto, trata-se aqui, de um juízo a posteriori, que revela não uma necessidade, mas uma contingência: o réu pode ser inocente, mas também pode ser culpado.
Dizemos, então, que "a princípio o réu é inocente”, pois é algo presumido, mas que pode se verificar o contrário. E é um juízo a posteriori, mesmo antes do trânsito em julgado.

terça-feira, maio 01, 2007


O motor principal e fundamental no homem, bem como nos animais, é o egoísmo, ou seja, o impulso à existência e ao bem-estar. [...] Na verdade, tanto nos animais quanto nos seres humanos, o egoísmo chega a ser idêntico, pois em ambos une-se perfeitamente ao seu âmago e à sua essência.
Desse modo, todas as acções dos homens e dos animais surgem, em regra, do egoísmo, e a ele também se atribui sempre a tentativa de explicar uma determinada acção. Nas suas acções baseia-se também, em geral, o cálculo de todos os meios pelos quais procura-se dirigir os seres humanos a um objectivo. Por natureza, o egoísmo é ilimitado: o homem quer conservar a sua existência utilizando qualquer meio ao seu alcance, quer ficar totalmente livre das dores que também incluem a falta e a privação, quer a maior quantidade possível de bem-estar e todo o prazer de que for capaz, e chega até mesmo a tentar desenvolver em si mesmo, quando possível, novas capacidades de deleite. Tudo o que se opõe ao ímpeto do seu egoísmo provoca o seu mau humor, a sua ira e o seu ódio: ele tentará aniquilá-lo como a um inimigo. Quer possivelmente desfrutar de tudo e possuir tudo; mas, como isso é impossível, quer, pelo menos, dominar tudo: 'Tudo para mim e nada para os outros' é o seu lema. O egoísmo é gigantesco: ele rege o mundo.

Arthur Schopenhauer, in 'A Arte de Insultar'

Foto: Leonardo Galvão

domingo, março 25, 2007

O existencialismo em Sartre e suas implicações morais.

1. Introdução

A primeira metade do século XX foi marcada pela eclosão de duas guerras que atingiram proporções mundiais. Lembrar esses fatos é suficiente para entender o que Voltaire tinha em mente ao afirmar que a história é “apenas uma série de crimes e desgraças”, mas o que eleva a pesquisa histórica é a sua capacidade de desafiar o homem a examinar sobre o que ela apresenta. E, de fato, foi refletindo sobre um mundo que se destrói que o existencialismo aparece, preocupado principalmente com o sentido da vida. Seus principais representantes são Jaspers e Gabriel Marcel, de confissão católica, e, entre os ateus, Sartre e Heidegger.

2. A existência precede a essência

O filósofo grego Platão, no séc. IV a.C. tenta resolver o problema da unidade e da multiplicidade sugerindo a existência de uma realidade transcendente, onde o ser se encontra na sua forma perfeita e imutável. Ele nos apresenta um modelo filosófico chamado Realismo, afirmando que as idéias universais constituem a realidade e que o mundo sensível é uma cópia imperfeita do Mundo das Idéias.

Com isso, Platão quer dizer que existe uma essência que precede a existência. Assim, se há, no mundo sensível, uma quantidade indefinida de homens, no mundo das idéias existe um conceito universal de humanidade, ou, “O Homem”. Para os realistas, os indivíduos são partes de um único ente, que subsiste no mundo das idéias como uma forma perfeita, uma matriz.

Posteriormente Aristóteles criticaria Platão por multiplicar os entes desnecessariamente. Para ele, o Ser está nos indivíduos, e as idéias são conceitos abstraídos. Se em Platão Lima Vaz identifica uma transcendência vertical, em Aristóteles teríamos uma transcendência horizontal. As idéias são, em Aristóteles, abstrações.

Na Idade Média houve defensores tanto do modelo platônico (Santo Agostinho), quanto do modelo Aristotélico (Santo Tomás). Tivemos também duras críticas à noção de que existe uma idéia por trás das coisas. O filósofo Guilherme de Ockham, por exemplo, ficou conhecido pela afirmação de que os entes não devem ser multiplicados desnecessariamente, a chamada “Navalha de Ockham”[1].

Assim, quando se afirma que a existência precede a essência, estamos fazendo uma oposição a toda afirmação de que existe um modelo de mundo. Isso significa que toda a nossa realidade simplesmente existe tal como é, e não existe nenhum parâmetro para ela, nem há modelo algum da qual ela participe. Em outras palavras, o ser não se fundamenta em nada e também não é fundamento de nada. Ou, como afirma Jean-Paul Sartre, “em primeira instância, o homem existe, encontra a si mesmo, surge no mundo e só posteriormente se define”.

O filósofo francês ainda lamenta que o existencialismo esteja desgastado em virtude de ser citado inadequadamente por modismo, e o define como “uma doutrina que torna a vida humana possível e que, por outro lado, declara que toda verdade e toda ação implicam um meio e uma subjetividade humana”.

Não há, então, segundo o existencialismo, uma natureza humana? No sentido transcendente, não. No entanto, os pensadores falam em condição do homem, ao invés de falar em natureza, entendendo por condição “o conjunto dos limites a priori que esboçam sua situação fundamental no universo”. Falemos, portanto, em universalidade do homem, não como algo dado, mas permanentemente construída.

Negar a existência de uma realidade que fundamente a existência traz profundas implicações metafísicas e epistemológicas, no entanto, serão suas implicações morais o objeto de nosso estudo.

3. Implicações morais

Sartre inicia o seu texto “O existencialismo é um humanismo” dizendo que o existencialismo ateu é mais coerente do que aquele defendido pelos cristãos. De fato, a perspectiva ateísta é mais clara, uma vez que é difícil conciliar Deus com um mundo que simplesmente existe. Talvez um dos primeiros a pensar nesse caminho tenha sido Nietzsche, anunciando a morte de Deus. Para ele, o homem ético é aquele que obedece aos valores impostos pelos fracos. O homem livre, no entanto, é aquele que se afirma criando os seus próprios valores. A existência é trágica e se resolve em si mesma. Com isso, Nietzsche reinsere o homem no mundo que não oferece subterfúgio.

Para os existencialistas, cabe ao homem dar sentido à sua vida. Não há resposta a priori para a existência. Os entes simplesmente existem, e não faz sentido perguntar por si mesmo.

No existencialismo o homem deve chamar para si a responsabilidade total de sua existência.

“Assim, quando dizemos que o homem é responsável por si mesmo, não queremos dizer que o homem é apenas responsável pela sua estrita individualidade, mas que ele é responsável por todos os homens (...) Ao afirmarmos que o homem se escolhe a si mesmo, queremos dizer que cada um de nós se escolhe, mas queremos dizer também que, escolhendo-se, ele escolhe todos os homens (...) por outras palavras: escolhendo-me, escolho o homem”.

Essa responsabilidade é tamanha, que Sartre chega a falar em angústia, desamparo e desespero. A angústia decorre diretamente da responsabilidade individual perante a humanidade. Isso quer dizer que o homem “não consegue escapar ao sentimento de sua total e profunda responsabilidade”. Assim, aquele que age pensando que está escolhendo apenas para si próprio não pode estar em paz com a consciência. As grandes decisões são tomadas em angústia, “mas isso não os impede de agir, muito pelo contrário: é a própria angústia que constitui a condição de sua ação, pois ela pressupõe que eles encarem a pluralidade dos possíveis e que, ao escolher um caminho, eles se dêem conta de que ele não tem nenhum valor a não ser o de ter sido escolhido”.

Falar em desamparo é “dizer que Deus não existe e que é necessário levar esse fato às últimas conseqüências”, o que elimina a possibilidade de quaisquer valores a priori, resultando num grande incômodo, principalmente pelo fato de o homem não encontrar desculpas para suas ações. Sendo mais direto: o homem é condenado a ser livre.

“Estamos sós, sem desculpas. É o que posso expressar dizendo que o homem está condenado a ser livre. Condenado, porque não se criou a si mesmo, e como, no entanto, é livre, uma vez que foi lançado no mundo, é responsável por tudo o que faz. O existencialismo não acredita no poder da paixão (...) Ele considera que o homem é responsável por ela. O existencialista não pensará nunca, também, que o homem pode conseguir o auxílio de um sinal qualquer que o oriente no mundo, pois considera que é o próprio homem quem decifra o sinal como bem entende. Pensa, portanto, que o homem, sem apoio e sem ajuda, está condenado a inventar o homem a cada instante”

Nesse sentido, o desamparo e a angústia caminham juntos, uma vez que ambos apontam para uma mesma realidade: o homem escolhe a si mesmo. Já o desespero significa que “só podemos contar com o que depende da nossa vontade ou com o conjunto de probabilidades que tornam a nossa ação possível”. Sartre prossegue mencionando que é preferível desinteressar-se das possibilidades que não estão diretamente envolvidas com as nossas ações, pois, uma vez sendo o homem livre, não se pode contar com a bondade humana naquilo que não está ao seu alcance, podendo o homem contar apenas com aqueles que estão num engajamento comum.

E quando Sartre fala em levar às últimas conseqüências, também devemos considerar que na ausência de um fundamento, o mundo não é determinado por nada. Tal afirmação exibe uma realidade em que o homem não pode responsabilizar circunstância nenhuma pelo que ele se tornou.

“Será que, no fundo, o que amedronta na doutrina que tentarei expor não é o fato de que ela deixa uma possibilidade de escolha para o homem? (...) O que as pessoas, obscuramente, sentem, e que as atemoriza, é que o covarde que nós lhes apresentamos é culpado por sua covardia. O que as pessoas querem é que nasçam covardes ou heróis”.

Na total ausência de princípios, é extremamente espinhoso falar em juízo, pois a perspectiva existencialista não nos permite estabelecer quaisquer parâmetros para a justiça. Sobre isso, Sartre comenta que mesmo sem princípios a priori, é possível julgar, por exemplo, considerando como de má-fé toda tendência a desculpar-se recorrendo ao determinismo ou às paixões. Logo, quando o homem age de má-fé, o faz por escolha, e não por coerência, e embora este não possa ser julgado moralmente, podemos afirmar que comete um erro.

Os juízos morais também são possíveis uma vez que a liberdade quer a si mesma, ou seja:

“os atos dos homens de boa fé possuem como derradeiro significado a procura da liberdade enquanto tal (...) e querendo a liberdade, descobrimos que ela depende integralmente da liberdade dos outros, e que a liberdade dos outros depende da nossa (...) sou forçado a querer, simultaneamente, a minha liberdade e a dos outros; não posso ter como objetivo a minha liberdade a não ser que meu objetivo seja também a liberdade dos outros.”

Temos, portanto que, o agir que não tem por fim a liberdade do outro não pode ser livre em si mesmo.

5. Conclusão

O existencialismo é apresentado por Sartre como a doutrina que torna a vida humana possível, no sentido em que o homem é o único responsável pelo que ele é. Vimos que responsabilizar uma natureza metafísica ou um cair num determinismo é uma atitude de má-fé. O homem é um ser-aí, ou seja, está lançado no mundo, angustiado em virtude da sua responsabilidade perante a humanidade, totalmente desamparado e sozinho e desesperado, porque somente pode contar com aquilo que depende de sua vontade.

O existencialismo oferece um riquíssimo caminho para se pensar questões atuais, como os problemas relacionados ao meio ambiente, responsabilidade diante da exclusão social e outros problemas ligados à ética e ao direito.

6. Referência Bibliográfica

SARTRE, Jean-Paul; GUEDES, Rita Correia (Trad.) L’Existentialisme est un Humanisme, Les Éditions Nagel, Paris, 1970.



[1] entia non sunt multiplicanda praeter necessitatem

domingo, dezembro 03, 2006

A ética nos gregos clássicos.

A palavra “ética” tem origem do termo ethos, que resulta de dois vocábulos gregos de significados distintos. O primeiro designa “a morada do homem”, e o segundo está relacionado ao comportamento que resulta do hábito. Poderíamos defini-la de forma mais simples como “costumes”. Heráclito entendia o ethos como regido pelo logos. De fato, os conceitos de ethos e logos estão amarrados, pois as ações humanas são caracterizadas pela razão, em contraposição ao impulso do desejo. Assim, o agir humano é um agir ético.

A cosmologia de Demócrito, por exemplo, era sustentada num materialismo e determinismo mecânico, contudo, a felicidade humana estava na “harmonia da razão e na paz da alma”. Aqui começa a ficar clara a diferença entre a physis e o logos. “O domínio da physis ou o reino da necessidade é rompido pela abertura do espaço humano do ethos no qual irão inscrever-se os costumes, os hábitos, as normas e os interditos, os valores e as ações” [1].

A reflexão grega no campo da ética “surgiu como uma pesquisa sobre a natureza no bem moral, na busca de um princípio absoluto da conduta”[2]. Para Sócrates, ela se identifica com o conhecimento. Ele não admite que um homem, conhecendo o bem, faça o mal, mas este é praticado por ignorância. O sofista Protágoras, por sua vez, entendia que a moral é convencional, como podemos observar na sua máxima “o homem é a medida de todas as coisas”.

A ética sistematizada por Platão é uma implicação de sua metafísica. Partindo da idéia de que todos os homens buscam a felicidade, o homem deve renunciar aos prazeres e às riquezas e dedicar-se à prática da virtude, pois neste mundo sensível encontramos apenas simulacros do mundo inteligível e a nossa alma é prisioneira do corpo. À semelhança de Sócrates, Platão identifica a virtude com o conhecimento, e o mal com a ignorância. “A virtude que dirige a alma racional tem o nome de sabedoria, a que dirige a alma irascível chama-se fortaleza, a que dirige a alma concupiscível, temperança, e a que controla as relações entre as três almas chama-se justiça”[3]. Os homens devem procurar, portanto, a contemplação das idéias, que ocorre com o exercício da dialética.

Como vimos, o ethos é a dimensão do agir humano, e sua relação com o logos também é notável no pensamento de Aristóteles. Segundo ele, o homem deve possuir uma função que lhe seja própria, e não pode ser apenas o viver, pois se for assim, em nada se diferencia dos vegetais, e uma vida baseada nos sentidos equipara-se à dos animais inferiores. Assim, aquilo que diferencia o homem e o torna peculiar é a faculdade da razão. É exatamente o momento em que o homem escapa do determinismo natural, rompe a barreira da physis e busca abrigo no ethos. “É, pois, no espaço do ethos que o logos torna-se compreensão e expressão do ser do homem como exigência radical de dever-ser ou do bem”[4]. Para Aristóteles, o bem próprio do homem é a vida dedicada ao estudo e à contemplação.



[1] VAZ, Henrique C. de Lima. Escritos de Filosofia II : Ética e Cultura. 2. ed São Paulo: Loyola, 1993. (pág. 13)

[2] Valls, Álvaro L. M. O que é ética – 9ª ed. – São Paulo: Brasiliense, 1994. (pág. 24)

[3] MONDIN, Battista. Curso de filosofia. São Paulo: Paulus, 1981. (pág. 79)

[4] VAZ, Henrique C. de Lima. Escritos de Filosofia II : Ética e Cultura. 2. ed São Paulo: Loyola, 1993. (pág. 13)

quinta-feira, outubro 12, 2006

"Foi dada a chance ao Lula"
"Demos uma chance ao Lula. Ele a desperdiçou". É o que ouvimos a todo momento da direita e dos seus defensores.
Isso me lembra as palavras de Chico Buarque à Folha OnLine:

"Fizeram o diabo para impedir que o Lula fosse presidente. Inventaram plebiscito, mudaram a duração do mandato, criaram a reeleição. Finalmente, como se fosse uma concessão, deixaram o Lula assumir. "Agora sai já daí, vagabundo!". É como se estivessem despachando um empregado a quem se permitiu esse luxo de ocupar a Casa Grande. "Agora volta pra senzala!". Eu não gostaria que fosse assim."

http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u60177.shtml


Quando é que a direita vai aceitar que Lula foi eleito pelo povo? Quando vão cessar esse discurso nojento e demagogo, de que Lula teve apenas 'uma oportunidade'? Lula é o presidente que o povo legitimamente elegeu para por fim à oligarquia que operava nesse país. É o Lula dos trabalhadores, e nós, trabalhadores, daremos a ele quantas chances nós quisermos dar! Dizer que Lula 'desperdiçou sua chance' é discurso de quem pensa que o poder é originalmente dessa direita e coloca o presidente na reduzida condição de 'visitante' do Planalto. Vamos acabar com essa história de achar que esses 4 anos foram uma 'experiência' e mostrar que esses anos foram de governo, de administração. Além das questões que o Chico levantou de forma brilhante, lembro também o alvoroço criado diante da iminente eleição de Lula, em que a direita queria a todo custo dar autonomia ao Banco Central. Não vou nem dizer se isso é ou não bom para o Brasil, mas o fato é que isso não aconteceu por motivação econômica, e sim armação política.
Charge de Bessinha, retirada de www.chargeonline.com.br

sexta-feira, agosto 11, 2006

Voltemos à feliz espécie dos loucos. Passada a vida alegremente, sem medo ou pressentimento da morte, emigram directamente para os Campo Elísios e vão deleitar com as suas facécias as almas ociosas e pias. Comparai agora ao destino do louco o de um sábio à vossa escolha. Citai-me um modelo de sabedoria que tenha gasto a sua infância e a juventude no estudo das ciências e que tenha perdido o mais belo tempo da sua vida em vigílias, cuidados e trabalhos sem fim e que se tenha privado, para o resto da sua vida, de todos os prazeres. Vereis que foi sempre pobre, miserável, triste, tétrico, severo e duro para consigo mesmo, insuportável e desagradável para com os outros, pálido, magro, servil, envelhecido antes do tempo, calvo antes da velhice, votado a uma morte prematura. Que importa, aliás, que morra, se nunca chegou a viver! Tal é o belo retrato deste sábio.


Erasmo de Roterdão, in "Elogio da Loucura" (fala a Loucura)

A Desgraça do Sonhador
E vocês sabem o que é um sonhador, cavalheiros? É um pecado personificado, uma tragédia misteriosa, escura e selvagem, com todos os seus horrores frenéticos, catástrofes, devaneios e fins infelizes... um sonhador é sempre um tipo difícil de pessoa porque ele é enormemente imprevisível: umas vezes muito alegre, às vezes muito triste, às vezes rude, noutras muito compreensivo e enternecedor, num momento um egoísta e noutro capaz dos mais honoráveis sentimentos... não é uma vida assim uma tragédia? Não é isto um pecado, um horror? Não é uma caricatura? E não somos todos mais ou menos sonhadores?

Fiodor Dostoievski, in 'Escritos Ocasionais'

domingo, junho 18, 2006

Amor é fogo que arde sem se ver
Luis Vaz de Camões

Amor é fogo que arde sem se ver,
é ferida que dói, e não se sente;
é um contentamento descontente,
é dor que desatina sem doer.

É um não querer mais que bem querer;
é um andar solitário entre a gente;
é nunca contentar-se de contente;
é um cuidar que ganha em se perder.

É querer estar preso por vontade;
é servir a quem vence, o vencedor;
é ter com quem nos mata, lealdade.

Mas como causar pode seu favor
nos corações humanos amizade,
se tão contrário a si é o mesmo Amor?